Livro mostra como Marília Mendonça reescreveu as regras do sertanejo

14 de outubro de 2026, 11h14, por Amanda Ramalho

Em 2015, as dez músicas mais tocadas nas rádios brasileiras eram sertanejas e cantadas por homens. No ano seguinte, a lista continuava inteiramente sertaneja, mas trazia quatro vozes femininas, e na quarta posição estava "Infiel", bolero dramático em que uma mulher traída enfrenta, ao mesmo tempo, o marido e a amante. A canção apresentou o Brasil a Marília Mendonça, então com 20 anos, e marcou o início de uma virada que a jornalista Carol Prado investiga em "O rastro da rainha: Para entender o fenômeno Marília Mendonça", que chega às livrarias pela Editora Vestígio.

O lançamento acontece num momento em que a memória da cantora volta a mobilizar o público, com a exposição Marília Mendonça: Sentimento Louco atualmente em cartaz no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo; a série documental de mesmo nome, que estreia no Prime nesta sexta-feira, 16 de outubro; e a cinebiografia Marília, prevista para 2027. Entre tantas formas de revisitar sua história, o livro aposta na reportagem e na análise da obra para medir o tamanho da artista e do vazio que ela deixou.

O rastro da rainha é uma espécie de biografia contada através das músicas. De um repertório de mais de trezentas composições próprias, a autora escolheu dez, de "Minha Herança", escrita aos 12 anos, à póstuma "Tudo Vai Ficar Bem", e fez de cada uma o fio condutor de uma etapa da história. Para isso, passou meses conversando com artistas, produtores, compositores, empresários e fãs, revisitou entrevistas e imagens de arquivo e ouviu a coleção de áudios que a cantora enviava ao "rebanho", como chamava seus seguidores, num grupo de mensagens.

A origem dessa obra está numa casa evangélica de Goiânia onde música secular era proibida. Escondida no quarto, a jovem Marília gravava Pitty e NX Zero no MP3 e dizia que nunca cantaria sertanejo, "música de corno". Aos 12 anos, depois da primeira desilusão amorosa, compôs "Minha Herança", gravada anos depois pela dupla João Neto & Frederico. "Eram músicas muito adultas para uma criança… Ela era, de fato, uma criança", resume o empresário Wander Oliveira. Antes de ficar conhecida como cantora, ela já era uma compositora disputada nos bastidores, dona de um estilo tão particular que ganhou nome próprio: o jeito "mariliônico" de compor.

Quando subiu ao palco, ao lado das amigas Maiara & Maraísa, levou para o centro do gênero personagens que o sertanejo quase nunca tinha ouvido: mulheres traídas, amantes, mulheres que bebem, desejam, erram e revidam. Pioneiras como as Irmãs Galvão, Inezita Barroso, Roberta Miranda e Paula Fernandes haviam sido exceções solitárias; agora, pela primeira vez, havia um movimento coletivo. A imprensa batizou o fenômeno de "feminejo", rótulo que Marília rejeitou até o fim. "Existe rock feminino? Existe MPB feminina? Então, qual é a sua? Sertanejo é sertanejo, não existe 'feminejo'", disse a um executivo da Som Livre.

O livro também não poupa a artista. Quem conviveu com ela descreve uma pessoa teimosa, ciumenta com os amigos e capaz de brigar pelos motivos mais fúteis. A relação íntima com os fãs, mostra a autora, era espontânea, mas também estratégica: o grupo de mensagens servia para organizar mutirões que inflavam seus números na internet. Foi esse engajamento que sustentou a turnê Todos os Cantos, em que a cantora panfletava nas ruas para anunciar shows gratuitos, e que levou sua "Live Local", em abril de 2020, a 3,3 milhões de acessos simultâneos, a transmissão mais assistida da história do YouTube até então.

A parte final investiga o que veio depois do acidente aéreo de novembro de 2021. A morte da cantora, escreve a autora, virou uma ferida aberta no sertanejo, a ponto de nomes como Maiara & Maraísa e Henrique & Juliano recusarem entrevistas para o livro. O luto ajudou a desencadear a pausa de Zé Neto & Cristiano em 2024 e trouxe para o gênero um debate sobre saúde mental que ele sempre negligenciou. 

Para Carol Prado, Marília foi a artista brasileira mais importante surgida neste século, alguém que chegou ao topo sem editar a própria personalidade. "Marília cantou sobre mulher amante, mulher que trai, corna, cachaceira, prostituta, talarica, não correspondida. Falou para todo mundo ouvir, e ajudou a gente a se entender e a se aceitar. De alguma forma, viver como mulher se tornou um pouco mais fácil por causa dela".

Ouvir músicas da Marília Mendonça

Fonte: Grupo Autêntica

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